Alô!
Quero me desculpar com todos vocês por não ter podido estar em contato durante os 13 meses que residi no Presídio Central do estado do Rio Grande do Sul.
Minha temporada na cadeia foi num presídio administrado por militares de maneira inteiramente profissional. Minha cela, para duas pessoas, foi repartida com um quarentão com curso superior, pai de dois filhos, um homem bom que já admitiu seus crimes fraudulentos e só anseia agora por sair da cadeia, voltar a trabalhar e cuidar da família. Não houve nenhuma ameaça de violência ou de morte contra mim. Atribuo isso ao excelente treinamento recebido e praticado pelos guardas da penitenciária, que são muito fiéis ao diretor do presídio. Este é coronel e tem excelentes qualidades de liderança, o que o faz um bom diretor de presídio. Tem todas as qualidades e atributos e encontrei nos oficiais que me serviram de exemplo durante os mais de vinte anos de meu serviço militar.
Fui solto da prisão ontem à noite, depois que o Tribunal de Justiça do estado de RS votou 3 a 0 em meu favor, deferindo meu habeas corpus. O processo em juízo continua, ainda sob o sigilo de justiça decretado pela juíza que preside ao caso. Apesar disso, há advogados e direitos humanos e jornalistas divulgando aquilo que concluíram através de entrevistas na comunidade de Morro da Pedra. Confirmam o fato de que sou completamente inocente de qualquer crime. Nem uma única vítima foi encontrada que testemunhasse contra mim — o que não surpreende, pois que nenhum crime foi cometido. A imprensa menciona corretamente que o Ministério Público denunciou pais de crianças e nomeou dez meninos como sendo vítimas, ainda que os meninos e suas famílias tenha protestado contra esta violação de seus direitos de cidadão. A comunidade informa que os exames médicos e psicológicos das crianças indicam que nunca foram vítimas de abuso sexual. Os meninos afirmam à imprensa que sou inocente, e são eles que estão dizendo a verdade, não os sócios do clube particular chamado Colina do Sol, de onde partiram os boatos contra mim.
A meia dúzia de sócios da Colina do Sol que diz que os meninos estão mentindo aparentemente fez isso para poder levar adiante um número imenso de fraudes que, segundo se diz, foram cometidas na história do clube. Tanto eu como outros interessados abrimos um processo separado que, se vitorioso, ocasionará a cessação dessas possíveis fraudes e garantirá que suas vítimas passem a ter o uso legítimo dos bens em que investiram.
Está escrito no site do fórum de Taquara que 80 testemunhas prestaram depoimento. Cinco destas ganharam financeiramente por engendrarem minha prisão; elas mesmas se gabam de ter ficado sabendo das vantagens de eu estar preso através das advogadas que trabalham para o clube Colina do Sol. Apenas uma testemunha, um rapaz, fez qualquer declaração concreta que me incriminasse. Quatro pessoas contaram que deram depoimento contraditório ao deste rapaz, explicando que ele quis me incriminar porque meu filho adotivo brasileiro, Douglas, tinha se envolvido com sua ex-mulher. Assim, de acordo com fontes bem-informadas da comunidade, 79 testemunhas declararam em seus depoimentos em meu favor, ou que nunca me viram ou ouviram cometer crime nenhum. A testemunha restante, o rapaz que mentiu, mudou seu depoimento dizendo que apenas “achava” que me viu cometer um crime.
O delegado que me prendeu fez grande alarde sobre um documento da polícia de San Diego, Califórnia, escrito durante o período de 1998 a 2000. Em 2000, a pedido meu, este relatório foi examinado por um juiz em San Diego, que determinou total ausência de mérito no relatório, pois as conjecturas nele feitas pela polícia não passavam de teorias de culpa por associação. O juiz determinou que o relatório fosse selado, proibindo sua divulgação. Apesar disso, um memorando contendo o relatório calunioso de 1998-2000 foi ilegalmente transmitido à polícia gaúcha e de lá à imprensa mundial por um agente do FBI, que está abusando de sua imunidade legal como “vice-adido legal” no Departamento de Estado americano em Brasília. Este agente do FBI quebrou a lei, expondo o governo americano a um processo indenizatório de milhões de dólares. Será aberto processo também contra o condado de San Diego por conta dos atos da agente que transmitiu o relatório ao FBI, em contravenção não só às normas éticas da Polícia de San Diego como às leis estaduais e federais americanas.
Em outra ocasião, este agente do FBI, com a cumplicidade de alguém, submeteu minha co-ré Barbara Anner, que na ocasião também estava presa, a um seqüestro e interrogatório ilegais. Ela tinha acabado de voltar do hospital, onde tinha ido receber fluidos intravenosos e estava ainda drogada. O agente fora-da-lei recusou-se a permitir a presença do advogado da ré e também quebrou a lei por não ter obtido a permissão do juiz do caso para fazer o interrogatório. A lei americana não permite que os agentes da polícia americana e do FBI atuem no Brasil sem a permissão das autoridades legislativas e executivas brasileiras. Além disso, o tratado bilateral que rege a atuação do Departmento de Estado americano no Brasil exige que o Departmento aja de acordo a assegurar a saúde e o bem-estar dos cidadãos americanos envolvidos. Na opinião dos advogados de Barbara, esse é outro assunto a ser julgado em tribunal nos EUA.
Eu pessoalmente também fui vítima desses agentes fora-da-lei do FBI. Um dia fui retirado da prisão, drogado e levado para um interrogatório ilegal. Meu advogado estava presente, mas o agente do FBI mentiu para mim, dizendo que eu seria libertado se assinasse uma declaração que ele me apresentou, escrita em uma língua que eu não entendo. Até hoje eu não sei o conteúdo do documento que fui coagido a assinar.
Não quer dizer que o Departamento de Estado americano em si tenha estado contra mim. Parece que dentro do Departamento, os profissionais de carreira estão tão revoltados contra o comportamento dos agentes fora-da-lei do FBI quanto eu. Tirando o agente to FBI, todos os funcionários do Departamento que me visitaram na cadeia mostraram-se solícitos quando à minha saúde e bem-estar, e aparentemente me ajudaram o tanto possível sem ultrapassar os limites do que lhes é permitido nem envolver-se no que é considerado domínio exclusivo das autoridades brasileiras. Uma funcionária mostrou-se particularmente prestativa; eu estou escrevendo ao Departamento de Estado agradecendo sua atuação e sugerindo que ela receba o devido reconhecimento.
Até agora vocês já leram na imprensa centenas de falsidades. Eu peço que vocês não aceitem tudo o que lêem com credulidade, mas com o devido ceticismo. No momento eu tenho que permanecer no Brasil para tratar da segurança minha e de meus amigos e associados. Assim que puder, viajarei aos EUA onde poderei me encontrar com vocês todos e responder a suas perguntas.
Para concluir, quero frisar que nem eu nem as pessoas que trabalharam na minha ONG são criminosos. Nós trabalhamos em prol dos direitos humanos e temos orgulho disso. Sendo assim temos apreço à Declaração Universal dos Direitos Humanos que foi assinada pelos EUA, pelo Brasil e por muitas outras nações em dezembro de 1948. Embora nós invistamos nosso tempo e nossos recursos em fazer valer essa declaração tão importante, ocorre que o fórum e o Ministério Público de Taquara abriram ação criminal contra cinco pessoas que vieram em nossa defesa, num claro abuso de poder. Três réus são pais de crianças que simplesmente afirmaram que não houve crime algum contra seus filhos. Um é um matemático de Berkeley que usou seu direito de liberdade de expressão para divulgar a verdade sobre nós. O último é um jornalista cujo único crime foi estar presente numa passeata onde as crianças-"vítimas" e suas famílias marcharam pela nossa liberdade. Em pé numa calçada ele levou uma cotovelada de um "conselheiro tutelar" enviado pelo Ministério Público para impedir que as crianças exercessem o direito de livre expressão assegurado pela Constituição brasileira.
Apesar de estar em liberdade, eu não posso telefonar para vocês. No entanto, vocês podem telefonar para mim se quiserem; basta mandar email para ficar sabendo o telefone. Estarei lendo email com freqüência e vocês podem usar IM se me virem online. Meu endereço de email continua a ser fritzl@aol.com.
Obrigado por seu apoio. Com sorte André e Cleci estarão livres em breve também! [Nota do site: Eles foram soltos três dias depois.]
Fritz